Celso Niskier
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Celso Niskier é reitor da UniCarioca e vice-presidente do Instituto Êxito de Empreendedorismo

“Tenho uma genética favorável... (risos)”, responde Celso Niskier, ao falar de onde surgiu o interesse em empreender na educação. O hoje reitor da UniCarioca vem mesmo de uma linhagem de educadores e estudiosos, com destaque para seu pai, o professor, jornalista e escritor Arnaldo Niskier, membro da Academia Brasileira de Letras desde 1984. Foi também por meio do pai que veio o convite que faria a vida de Celso mudar de rumo.

Graduado em Engenharia de Sistemas pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Celso enveredava pelo caminho da pesquisa acadêmica na área. No ano de 1989, aos 26 anos de idade, fazia doutorado em Inteligência Artificial em Londres, na Inglaterra. “Imagine um jovem estudante de doutorado, vivendo no frio londrino e imerso em suas linhas de pesquisa, ao receber um telefonema do pai, informando sobre a disponibilidade de uma ‘carta-consulta’ para uma nova instituição de ensino superior no Rio de Janeiro. É claro que não pestanejei: interrompi o doutorado em Inteligência Artificial (que só fui concluir vinte anos depois, na UFRJ), voltei mais cedo e assumi esse desafio com muita garra e vontade”, recorda.

Segundo Niskier, a criação em 1990 da então Faculdade Carioca de Informática, hoje UniCarioca, foi “um salto no escuro, mas valeu a pena”. “O sonho de um pesquisador científico foi interrompido, mas nasceu nesse momento o empreendedor educacional, e com isso uma nova trajetória de vida”, define. Manteve-se na academia, mas passou da pesquisa à gestão.

Empreendedorismo educacional

O professor conta que foi esse “vírus” do empreendedorismo educacional, que o contaminou desde cedo, que motivou a fundar a Faculdade Carioca de Informática em 1990, sob as bençãos do pai Arnaldo. De lá pra cá, em 30 anos, a faculdade tornou-se a UniCarioca, melhor Centro Universitário do Rio de Janeiro, segundo avaliação do MEC. “Durante essa trajetória, fui também membro do Conselho Estadual de Educação do Rio, por doze anos, onde aprendi a importância da educação básica e o valor do ensino público. Hoje, como diretor-presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (Abmes), participo de um grupo de empreendedores educacionais dispostos a investir no futuro do país, por meio de uma educação superior inovadora e de qualidade. Recentemente, assumi uma das vice-presidências do Instituto Êxito de Empreendedorismo, ao lado de Janguiê Diniz e outros 32 sócios-fundadores, no qual temos a grande oportunidade de impactar mais de um milhão de vidas através do empreendedorismo”, enumera.

Para Niskier, o que mais o motiva a seguir empreendendo no setor educacional é saber que a educação transforma vidas e realiza sonhos. “Hoje, são mais de 12 mil jovens estudantes na UniCarioca, cada um deles munido de um sonho e de muita garra para conquistar os desafios do mundo. Imaginar que posso contribuir para essa conquista, dando a eles as competências decisivas para o mundo do trabalho, é uma fonte inigualável de satisfação e de realização pessoal e profissional”, declara.

Educação e pandemia

Celso Niskier
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"Sairemos dessa crise mais fortes, mais resilientes e mais preparados para o futuro digital”, afirma Celso Niskier

As instituições de ensino foram um dos primeiros setores a suspender as atividades por conta da pandemia do novo coronavírus. Agora, há planos de retorno em algumas cidades, muito lentos e graduais, mas a maioria segue sem perspectivas. Nesse cenário, as empresas particulares de ensino superior, campo de atuação de Celso Niskier, precisaram reagir rapidamente à situação, e com criatividade. O professor conta que mais de 80% delas fizeram a rápida adaptação para as atividades remotas, salvando o período letivo de milhões de estudantes brasileiros, segundo pesquisa realizada pela empresa Educa Insights e divulgada pela Abmes. “O desafio, agora, é conseguir as linhas de crédito para financiar o capital de giro, aguentando o tranco da queda temporária nas receitas, decorrentes da crise pandêmica, ao mesmo tempo se preparando para a inevitável transformação digital, que vai se acelerar nos próximos anos. Sairemos dessa crise mais fortes, mais resilientes e mais preparados para o futuro digital”, analisa.

O setor educacional, principalmente a Educação Superior, para Niskier, tem um grande potencial, já que há milhões de trabalhadores sem qualificação adequada apenas aguardando por uma oportunidade para continuar seus estudos. “A educação superior representa uma chance de aquisição de competências e atitudes que impactam para melhor a vida das pessoas, seja pelo alargamento da consciência e ampliação de conhecimentos, seja pela formação profissional. O grande desafio continua sendo a expansão do financiamento estudantil para os menos favorecidos, de forma a que possamos incluir socialmente largas camadas da população sem acesso ao conhecimento. Isso aconteceu em todos os países desenvolvidos, e precisa acontecer também no Brasil, para que possamos alcançar o nosso potencial como nação”, pontua. Ele ressalta que muitas startups estão surgindo e oferecendo soluções tecnológicas inteligentes e disruptivas que podem tornar a aprendizagem mais eficiente e eficaz. “Novas formas de educar estão ganhando força, novos currículos estão sendo desenvolvidos, novas profissões estão surgindo. Não faltará trabalho para empreendedores e educadores sintonizados com esses novos tempos pós-pandemia”, aposta.

Tecnologia na educação

Para o futuro, o reitor da UniCarioca vê uma educação cada vez mais mediada pela tecnologia, personalizada e com currículos mais baseados em competências, incluindo as socioemocionais, de grande importância no mundo atual. “As escolas serão geridas com maior atenção aos dados dos alunos, utilizarão modelos preditivos e terão mais agilidade na criação de experiências únicas para seus estudantes”, define. Segundo Niskier, a inteligência artificial, objeto de estudo de seu doutorado, será uma realidade e um suporte para os professores, não para aliená-lo, mas para libertá-lo para tarefas mais criativas, como “designer” de ambientes de aprendizagem, e não mais como mero transmissor passivo de conhecimentos. “Imagino uma escola múltipla, conectada, acolhedora e eficiente no uso de recursos, e estudantes cada vez mais ativos no seu processo de aprendizagem. Esse é o sonho que eu alimento, desde que há 30 anos tomei a decisão de virar minha vida, voltar ao Brasil e fundar a UniCarioca. Quero tornar esse sonho uma realidade, junto com todos os empreendedores do Brasil”, declara.

O professor ressalta que a tecnologia deve ser utilizada sempre como um meio, não um fim em si mesma, e que o protagonismo estará sempre na relação professor-aluno. “Em pesquisa que fizemos na UniCarioca ao final desse semestre de pandemia, os professores que sempre foram bem avaliados continuaram sendo bem avaliados, independentemente da forma como escolheram usar a tecnologia. O recado é claro: o valor está no professor, independentemente da tecnologia que ele escolhe usar em sala de aula. Mas é lógico que ele precisa saber usar as novas ferramentas, pois essa é a linguagem que a geração de estudantes utiliza. As instituições que souberem trabalhar bem a transformação digital junto aos seus professores sairão na frente”, prevê.

Educação a distância

A pandemia evidenciou e acelerou uma realidade que já vinha se apresentando mais lentamente: o crescimento da educação a distância (EAD). Segundo dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), divulgados no Censo da Educação Superior 2018 (último divulgado), o Brasil já oferta mais vagas na modalidade a distância do que em cursos presenciais, embora, em número de matrículas, o presencial ainda seja superior. Já de acordo com a Catho Educação, as matrículas para cursos EAD tiveram um aumento de 70% entre 21 de março e 6 de abril de 2020, enquanto a busca pelos cursos remotos aumentou em 45%.

A previsão inicial do setor era de que o EAD superasse o presencial por volta de 2025, mas, com a crise, essa meta foi adiantada. Segundo cálculos da Abmes, já em 2022 poderemos ter mais estudantes à distância do que estudantes presenciais em universidades brasileiras. “Isso se deve a alguns fatores, entre eles as mensalidades mais acessíveis, a maior flexibilidade de horários e deslocamentos e a ampliação da oferta para todo o Brasil. Tudo isso acelerado pela experiência da pandemia, que ajudou a preparar alunos e professores para essa nova realidade”, explica Niskier.

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