O empreendedorismo feminino tem crescido significativamente nos últimos anos. Segundo levantamento divulgado essa semana pelo Sebrae, o Brasil já conta com mais de 10 milhões de proprietárias de negócios. No entanto, em 55% dos casos tal decisão é tomada por necessidade. Além disso, elas ainda são as que têm menos acesso a programas de aceleração e aporte, de acordo com o Mapa de Negócios de Impacto Socioambiental de 2021. Mesmo assim, empresas fundadas por mulheres têm um desempenho 63% melhor do que aquelas fundadas exclusivamente por homens, aponta a First Round Capital. 

Para além da gestão, muitas empreendedoras que venceram os desafios e os preconceitos que persistem na sociedade apoiam o protagonismo feminino em seus negócios, inovam em suas áreas e colhem os frutos por mais equidade de oportunidades. Conheça algumas dessas histórias:

Natalie Pavan, CEO da MyCookies

A advogada Natalie Pavan é sul-mato-grossense, tem 33 anos e sua trajetória como empreendedora começou de forma despretensiosa em 2016, quando decidiu vender uma receita própria de cookie (guardada a sete chaves, por sinal) nas portas das escolas e para complementar a renda. O biscoito crocante por fora e macio por dentro acabou virando febre no seu bairro e, em seguida, na sua cidade, Campo Grande.

O sucesso foi tão rápido que, em pouco tempo, o negócio ganhou loja, fábrica própria, tornou-se franquia em 2018 e hoje conta com 70 unidades espalhadas pelo país. Em 2021, a rede faturou R$ 16 milhões e a expectativa para 2022 é chegar a R$ 33 milhões com 120 pontos em todo território nacional.

Para conseguir conciliar a demanda crescente da MyCookies com a família, a empresária e mãe largou o trabalho em uma grande empresa, mantendo-se focada na produção e na busca de soluções para enfrentar os problemas que surgiam no processo de construção da marca. "Hoje, com muito orgulho, gero emprego para mais de 200 famílias, com 80% de mulheres", completa Natalie. Além da sua atuação empresarial, Natalie dá palestras falando da sua experiência para empoderar mulheres a empreenderem.  

Izabelly Miranda, fundadora e diretora técnica da rede Cuidare Brasil 

Após se formar em Enfermagem, a potiguar Izabelly Miranda decidiu empreender criando, em 2016, a Cuidare Brasil, em Natal (RN). O que começou como um projeto da faculdade – desenvolvido a partir de uma carência, percebida por ela, de serviços de cuidadores qualificados e de forma humanizada – cresceu rapidamente e, depois de 2 anos liderando o mercado local, a empreendedora decidiu formatar o negócio para um modelo de franquias e dar oportunidade para outras mulheres empreenderem.

Atualmente, as mulheres correspondem a 80% dos postos de liderança da rede. A marca se transformou em uma das maiores redes de cuidadores do país, estando presente em 22 estados e no Distrito Federal, além de Lisboa e Portugal, com mais de 70 unidades, e operações em curso no Canadá e na Argentina. "Aqui na Cuidare, nós mulheres, temos voz e vez. Nosso modelo de negócio tem muita sinergia com o empreendedorismo feminino. A mulher tem naturalmente sensibilidade e empatia, consegue entender a dor do outro, e em nosso segmento esse olhar humanizado faz a diferença", afirma Izabelly.

A franqueadora ajustou toda a cadeia de operação e a gestão da rede à logística dos cuidadores e, para tal, elaborou um software para ajudar no gerenciamento de suas unidades, que intregra, por exemplo, um sistema de ponto de funcionários via celular por geolocalização, gerando relatórios com horários exatos, número de dias trabalhados, faltas, atestados, salário base, entre outros itens. “Mudamos imediatamente a logística dos nossos cuidadores, que não puderam mais fazer trabalhos extras e ficaram restritos a apenas um idoso. Além disso, desenvolvemos e lançamos uma cartilha de procedimentos para garantir a segurança dos assistidos”, completa Izabelly.

Trata-se de uma microfranquia e o franqueado fica responsável pela seleção, treinamento, coordenação, supervisão e encaminhamento da sua equipe de cuidadores qualificados (todos com curso de técnico de enfermagem), além de fazer a intermediação entre quem procura o serviço e o profissional especializado.

Bianca e Tamara Dewes, fundadoras da Hey Peppers!

A marca gaúcha, fundada em 2013, pelas irmãs, empresárias e educadoras Tamara e Bianca Dewes, na cidade de Santa Rosa (RS), se consolidou no interior da região Sul em pouco tempo. Isto devido a seu crescimento impulsionado, em especial, pela “prata da casa”, ou seja, funcionários e alunos que se tornaram franqueados e correspondem, atualmente, a mais de 50% da rede.

Com 29 unidades, 26 no Rio Grande do Sul, duas em Santa Catarina e uma no Paraná, a meta agora é ampliar a atuação por toda região Sul partindo da experiência bem-sucedida em cidades menores.

Tamara, afirma acreditar que “por trás de toda grande marca, existem grandes mulheres. Por trás da Hey Peppers! não é diferente. Trazemos no nosso cerne uma equipe de peso formada por mulheres, e esse cuidado nos fez estar entre as melhores franquias do Brasil em 2021”, Bianca complementa que “grande parte da rede é formada por mulheres, estejam elas a frente da operação ou ao lado dos seus parceiros. Ao todo são 23 escolas Hey Peppers! lideradas por mulheres!”.

Ana Paula Rios, CEO da startup de impacto social Da Rua para Você e presidente do Instituto LAR

As pessoas em situação de rua sofrem com dilemas e problemas seríssimos e imediatos, como insegurança, fome, frio, falta de higiene, exposição a doenças e às drogas, contudo, os mais graves são a indiferença e a falta de oportunidades, pois estes fatores inviabilizam toda uma vida. Visando dar dignidade e perspectiva a essa população, Ana Paula Rios, de 32 anos, moradora do Engenho Novo, na Zona Norte carioca, resolveu se dedicar à transformação dessa dura realidade.

A primeira iniciativa da engenheira de produção, ainda quando era estudante, foi o “Banho da Alegria”, um chuveiro itinerante que percorre as praças do Rio de Janeiro disponibilizando banho às pessoas em situação de rua. Criada em 2017 com a companheira, a psicóloga Marihá Lopes, e a ajuda de vaquinhas online, rifas, bazares e doações, a ação cresceu, estabeleceu parcerias e se tornou um projeto amplo, passou a reunir diversos outros de impacto social e, com isso, a levar lazer, alimentação e assistência.

Mas Ana Paula não parou por aí e viu a possibilidade de gerar ainda mais impacto social para essa população. Foi quando criou a startup Da Rua Para Você, uma empresa escola que qualifica e promove geração de renda para pessoas em situação de rua. Consiste numa estamparia de diversos produtos (como camisetas, canecas, azulejos e bonés) que oferece, de forma gratuita, capacitação, consultoria financeira e oportunidade de emprego às pessoas em situação de rua. Segundo Ana Paula, a ideia é crescer, gerar impacto social decisivo, inspirar e transformar a visão do mercado sobre quem vive nessa condição. Hoje, a iniciativa também atua com mulheres negras, público LGBTQI+, catadores de materiais recicláveis e pessoas em vulnerabilidade social.

Durante a quarentena em decorrência da pandemia do novo coronavírus, a startup atuou ativamente criando a “Pia do Bem”, projeto que envolveu a construção e instalação de pias por vários pontos da Região Metropolitana do Rio de Janeiro para a higiene e prevenção da população em situação de rua.

A iniciativa chamou a atenção do jogador Marcelo, do Real Madrid e Seleção Brasileira, que se tornou seu patrocinador. Ganhadora do prêmio "Inspira Rio", organizado pelo Grupo Bandeirantes, na categoria "Responsabilidade Social", Ana Paula assumiu, em 2021, a presidência do Instituto LAR, organização não-governamental e sem fins lucrativos que apoia a reinserção social da população de rua no Centro do Rio e que conta com mulheres em 80% do seu quadro de voluntários. 

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Monique Rodrigues, CEO da rede Clinicão

Com quase 30 anos no mercado, a Clinicão é a primeira franqueadora de serviços veterinários do Brasil. Comandada pela carioca, Monique Rodrigues, o processo de criação do negócio começou em 1987, quando Monique foi aprovada no vestibular para veterinária na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Em 1994, inaugurou a sua primeira clínica, em Guaratinguetá (SP), e inovou com procedimentos que se tornaram tendências no atendimento aos pets.

Com o apoio do Sebrae e muito estudo, fez da clínica uma referência e ingressou no Franchising com o propósito de desenvolver veterinários empreendedores. Isto porque um aspecto marcante no negócio é que, além do suporte padrão de uma franqueadora para a franqueada, Monique, que também tem MBA em Gestão Empresarial e Economia, dá todo o suporte para o franqueado ou a franqueada – em geral, profissional da área da saúde animal – na sua formação e preparação para administrar um negócio. "Sei das dificuldades por experiência própria. Quando criei a clínica, foi bem complicado, pois, na faculdade de veterinária, não tive nenhum aprendizado na área de gestão. No mercado pet se observa, infelizmente, um baixo grau de profissionalismo nas diferentes áreas. Graves problemas de gestão são comuns nos empreendimentos, fazendo com que bons técnicos não atinjam os resultados esperados ou não evoluam profissionalmente".

O sonho ganhou forma se transformando em uma rede com unidades nos estados de São Paulo e Minas Gerais. Hoje, a rede conta com 05 unidades e possui um modelo de clube de assinaturas, o Clinicão Plus, a rede aumentou seu faturamento bruto em 8% em 1 ano e, atualmente, conta com mais de 140 assinantes.

O plano oferece assessoria virtual com uma equipe selecionada de veterinários, valores diferenciados nos atendimentos nas unidades Clinicão e farmácias de manipulação parceiras, além de conteúdos pet exclusivos. Em 2021, mesmo com o cenário de pandemia, a rede apresentou um crescimento médio de aproximadamente 35% no faturamento bruto de suas unidades e pretende para 2022 intensificar sua expansão pelo sudeste do país. "O desafio de empreender é ainda maior para nós mulheres e mães, ao ter que gerenciar a nossa carreira profissional e função materna. Infelizmente, a responsabilidade dos cuidados com a prole ainda recai mais sobre as mulheres. Para mim, o que me ajudou a atender a todos estes aspectos foi a organização, e acredito que meus filhos têm orgulho de ver a mãe deles empreendendo e gerando emprego e renda", finaliza a CEO.

Mariza Gottdank, CEO da rede Dank Idiomas

Com 20 anos de atuação como professora em escolas de idiomas, Mariza Gottdank decidiu empreender em 2010 ao criar uma consultoria de idioma para empresas com funcionários em dificuldade para aprender inglês, a Dank Language. A empreitada evolui para conquistar novos públicos e a educadora desenvolveu para o seu negócio um método diferenciado: um blend de atividades unindo softwares de correção de pronúncia às técnicas de desbloqueio da conversação.

Com o sucesso do método, a marca virou Dank Idiomas e foi transformada em franquia em 2018. A aposta passou a ser no modelo de ensino a distância, neste caso, no modelo de escola móvel, com material digital e impresso que, com base em compartilhamento de telas oferecido por plataformas de videochamada, permite ao franqueado oferecer aulas em qualquer lugar, seja em casa, empresas ou até em um café, sem necessidade de instalar-se em ponto comercial e fazendo a sua própria rotina.

Nos dois primeiros anos, foram vendidas 3 franquias, mas foi em 2020, durante a pandemia do novo coronavírus, que a empreendedora viu a sua rede disparar e hoje conta com 24 unidades, sendo duas no exterior, no Uruguai e no Canadá. “Por ser uma microfranquia, com investimento mais acessível, tornou-se uma oportunidade - entre professoras, em especial - para empreender num momento de retração do mercado de trabalho sem sair de casa e ainda conciliar com a família”, explica.

Karla Diebe, CEO da Foccus Cegonhas

Criada em março de 2020, em São Paulo (SP), a Foccus Cegonhas, primeira franquia de caminhões-cegonhas do país, nasceu com o objetivo de capitanear fundos para Karla Diebe montar sua própria clínica veterinária. Com Diebe à frente do negócio, a Foccus iniciou no Franchising em março de 2021, exatamente um ano após sua criação, e já chegou a 12 unidades espalhadas pelo Brasil.

O negócio que a inspirou a empreender, além de gerar boas perspectivas de crescimento, requer um capital financeiro de baixo investimento. Após adquirir o negócio, o franqueado pode atuar por meio de dois modelos: no Home Based, ele opera em casa e cuida de toda a parte comercial. Já no Modelo Base, o empreendedor também dá apoio à logística, contribuindo com vistoria, armazenamento de veículo e prestadores de guincho. A Foccus Cegonhas planeja entrar em diversas capitais da região Norte, além de cidades como Fortaleza (CE) e Rio de Janeiro (RJ). Alçar novos voos por meio da internacionalização pela América do Sul também está nos planos da marca.

Karla conta que, hoje, a sua maior dificuldade é administrar o tempo perante tantas funções do dia-a-dia. “Administrar todas as tarefas da rotina de ser uma mulher empreendedora num ramo predominantemente masculino, dona de casa e mãe. Tenho orgulho da minha trajetória, pois ela me levou a ser a mulher independente que sou hoje. E estando em um cargo de liderança, comecei a dar mais importância em ter mulheres na minha equipe, trabalhando comigo. Conquistando cada dia mais o nosso espaço na sociedade, seja em cargos de importância em empresas ou empreendendo por conta própria.”

Ludmila Hastenreiter, CEO da startup Empoderamento Contábil 

Ludmila Hastenreiter tem 33 anos, é contadora, empreendedora social e empodera mulheres de periferias do Rio de Janeiro através do conhecimento em Gestão Financeira e Contábil. Mulher negra, nascida e educada em áreas periféricas do Rio de Janeiro, Ludmila enfrentou o preconceito e o machismo no meio corporativo, tendo se especializado em algumas das principais instituições acadêmicas do Brasil e do exterior. Ela entende que sua missão é retribuir aos seus iguais o conhecimento que conquistou ao longo dos anos de estudo e atuação em grandes empresas. 

Em 2017, Ludmila criou a startup Empoderamento Contábil e desde então tem promovido eventos gratuitos como palestras, workshops, treinamentos online e lives, impactando mais de 2 mil pessoas em quatro anos. Em cada evento, ela conscientiza sobre a importância das Finanças Empresariais e da Contabilidade para o sucesso do micronegócio. Durante a pandemia, ela tem promovido esses encontros online, por meio das redes sociais. "No Brasil, mais de 29 milhões de lares são liderados por mulheres, a maioria mães solo que se dividem diariamente entre diversos papéis e responsabilidades financeiras... Mulheres que fomentam a economia do país, mas ainda acreditam que suas atividades empreendedoras são apenas bicos temporários, que não são capazes de compreender as rotinas e demandas de uma empresa, além de desconhecerem os benefícios financeiros que a mudança pelo conhecimento trará para vida delas. Quando mulheres prosperam financeiramente, suas famílias, comunidades e cidades também prosperam", explica Ludmila.

Bia Willcox, CEO da WOWL

A carioca Bia Willcox, 53 anos, é educadora, empresária, jornalista, palestrante, advogada e membro da comissão OAB VAI À ESCOLA, projeto que tem como objetivo conscientizar alunos das escolas públicas sobre a importância dos direitos humanos e da cidadania, através de palestras e debates realizados por advogados voluntários nas salas de aula. Desde 2009, possui sua própria escola bilíngue, a Wowl Education, que possui metodologia própria e oferece programas internacionais semelhantes às das escolas estrangeiras, mesclando o ensino em inglês com matérias como matemática, história, biologia e educação socioemocional.

Durante a pandemia, a empreendedora idealizou e criou a plataforma do curso com aulas ao vivo para crianças e adultos. Hoje, o projeto conta com alunos de todo o Brasil e também Portugal. Sempre criativa, Bia junto com o ilustrador Atlan Coelho, criaram a série de livros infantis em inglês, o “The W Street Family”, que terá seu primeiro livro publicado pela Amazon este ano e também já possui contrato assinado com a TV Cultura para produção de uma animação sobre a série de livros. Nas obras serão abordados temas da cultura inglesa/americana e também temais atuais ligados às diversidades do mundo. Bia como palestrante aborda diferentes temas, como empreendedorismo, tecnologia na educação e o desenvolvimento da criatividade, os novos paradigmas das relações sociais, Geração Z e empreendedorismo nas escolas públicas.

Além disso dá aulas de Marketing e é professora na plataforma Descomplica e ICL (Instituto Conhecimento Liberta). "Comecei a empreender aos 24 anos com dois filhos pequenos. Por mais apoio que tenhamos, a vida se torna um desafio. Passei por planos econômicos, recessão, inflação, separação, nova paixão, e também decepção em diversos campos. As dificuldades me fazem querer inovar e fiz disso um hábito em minha vida. Esbarrei em machismos e pessoas tóxicas. Mas também fiz ótimas parcerias, e conheci tantos que me ajudaram em minha trajetória. Não dá para romantizar escolher ser uma mulher empreendedora, são muitas horas de trabalho, investimento de tempo e dinheiro. Há caminhos mais fáceis com certeza, mas nesse meu caminho, há algo que me faz acordar todo dia renovada em querer continuar a escrever esta história", finaliza Bia.

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