"O corre não para, não pode parar, mas nossas vitórias nós merecemos sim celebrar". Essa é a rima que o poeta Cleyton Mendes, morador de Poá, na Grande São Paulo, escreveu em um post de comemoração nas redes sociais, após ser anunciado como um dos palestrantes da Faculdade de Artes e Ciências (COA) da Universidade Howard, em Washington, nos Estados Unidos.

Fundada em 1867, a Universidade Howard é uma instituição privada de pesquisa conhecida por ter grande parte do quadro estudantil ocupada por estudantes negros. Com o tema "Poesia com Poder: Slam Poetry & Social Justice", a reunião aconteceu nesta segunda-feira (25), às 12h10 (horário de Brasília), por meio de uma plataforma de vídeo. Segundo o artista, a aula aberta será totalmente em inglês, mas todos podem participar.

Cleyton Mendes, de Poá, recebeu um convite por uma rede social para palestrar na Universidade de Howard, dos Estados Unidos
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Cleyton Mendes, de Poá, recebeu um convite por uma rede social para palestrar na Universidade de Howard, dos Estados Unidos


Cleyton Mendes, de 31 anos, conta que cresceu cercado de poesia, mesmo sem saber. A percepção veio somente aos 22 anos, quando ele participou de um sarau. "Eu cresci escutando as músicas dos Racionais MC's, Partido Alto… Cresci cercado de arte, mas eu não enxergava porque eu achava que poesia era somente aquela literatura engessada, que não dialogava com a minha história, que ficava apenas nos livros, distante, trancado nas bibliotecas".

Desabafos e rimas sempre ocupavam a última folha do caderno. Mais uma vez, o poeta foi perceber a importância dos versos que escrevia após assistir o primeiro sarau.

"A minha família começou a me apoiar depois que foi entendendo que fazer arte, poesia, não é só um hobby. Também é uma profissão. Nós, que crescemos e vivemos na periferia, temos como objetivo conquistar um emprego e ter o mínimo de estabilidade possível e, infelizmente, a arte no Brasil ainda não é vista como trabalho. Então eu tive que mostrar para a minha família que a minha poesia é o meu trabalho".

'Carteiro poeta'

Já pensou receber uma encomenda do correio e, junto dela, uma poesia? É o que Cleyton, ou melhor, o "carteiro poeta", costumava fazer para alegrar o dia dos moradores da cidade onde mora e, além disso, espalhar cultura por aí.

Mendes conta que trabalhou como carteiro durante 12 anos, de 2011 até 2023. Entretanto, o que era para ser uma rotina “comum” para o poeta, se tornou algo gigante. “Quando conheci o slam, fiquei tão fascinado com isso que queria que o mundo todo descobrisse também. Comecei a entregar poesias junto com as correspondências, não só minhas, mas de vários autores que conheci em saraus e batalhas de poesias”.

Vendendo pratos, verduras na feira, recolhendo recicláveis nas ruas, descarregava caminhões, já foi atendente de telemarketing, entre outros. Estava sempre em busca de algo que trouxesse estabilidade financeira. Entretanto, em fevereiro deste ano, com a explosão do “carteiro poeta”, Mendes afirma que chegou a hora de voar.

“Meus livros são ‘Relatos de Uma Insônia’, meu primeiro livro, publicado em 2015, que eu decidi reunir poesias que escrevi durante a adolescência; ‘Contra Indicação’, de 2016, que nasceu por meio de uma poesia - com o mesmo nome - que viralizou nas redes sociais e pensei em fazer um livreto, com poesias curtas e que fosse fácil de carregar; ‘Etcetera’, de 2017, com a mesma estética do livro anterior; por fim, ‘África é Logo Aqui’ que é o meu livro favorito”. Ele fez eu sair da zona de conforto. O livro conta, em forma de diário, como foram meus dias em Moçambique”.

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