O desemprego no Brasil se tornou uma ferida mais latente neste ano. Segundo dados da Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios (PNAD) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de desocupação da população chegou a 8,8% dos brasileiros. E um dos grupos mais afetados pela falta de ocupação e renda, são os jovens, já que a taxa de desemprego na faixa dos 14 aos 17 anos aumentou de 29% para 33,1%, e dos 18 aos 24 anos cresceu de 16,4% para 18%, do 4º semestre de 2022 ao 1º trimestre deste ano.
Em relação a esse dado alarmante, existem algumas reflexões a serem feitas, tanto pelas empresas quanto pelos próprios jovens.
No âmbito empresarial, vale a pena pensar o porquê estamos deixando de fora das nossas empresas os jovens, que são o nosso futuro e a parcela da população que está mais atenta e por dentro do que há de mais moderno e inovador no mundo. Quais são os obstáculos que estão separando as empresas dos jovens, que em maioria são de periferia?
Uma pesquisa recente sobre injustiças estruturais entre jovens de São Paulo, que ouviu jovens 600 jovens que residem nas zonas sul e leste, feita pelo Juventudes Potentes e a Rede Conhecimento Social, trouxe um indicador importante: a distância entre a residência dos jovens e os grandes centros, onde estão a maioria das vagas de emprego, é um fator que contribui com o desemprego de jovens. Apesar dos sistemas home office e híbrido estarem indo de vento em popa no país, existem uma infinidade de ocupações que demandam o sistema presencial, mais conhecidas como serviços essenciais, como as farmácias, hospitais, supermercados, além dos restaurantes, padarias e tantos outros. Nesse estudo, 54% dos jovens ouvidos relataram dificuldades em encontrar oportunidades mais próximas de casa, o que facilitaria a sua rotina ou retomada dos estudos e cuidado com os filhos.
Outro dado que chama atenção, é que 26% dos entrevistados já omitiram ou mentiram sobre a região em que residem, por receio de serem prejudicados no processo seletivo, pois acreditam que as empresas não estão dispostas a pagarem pelo valor necessário para o transporte. Mas essa é só a ponta do iceberg que separa o mercado dos jovens talentos. Outras situações como o abandono dos estudos, falta de capacitação, dificuldade em encontrar uma primeira oportunidade, são as questões mais profundas que precisam ser revistas e que ressaltam a importância de iniciativas e projetos que visam a capacitação de novos talentos e inserção adequada no mercado.
Agora em relação aos jovens, o que eles podem e devem fazer para ajudar a melhorar esse gap? O primeiro passo é a compreensão de que o mercado de trabalho no geral está mudando, acompanhado as mudanças e tendências do mundo. Por isso, há uma grande preocupação por parte das empresas com a saúde mental, administração do tempo, principalmente com a onda do home office, trabalho em equipe, resolução de problemas e outros. Podemos dizer, portanto, que atualmente o foco está em profissionais que possuam essas competências comportamentais, conhecidas como soft skills, mais do que habilidades técnicas.
Nesse contexto, é fundamental para os jovens buscarem desenvolver e aprimorar suas soft skills. Isso pode ser feito por meio de cursos, treinamentos, workshops e até mesmo atividades extracurriculares. Além disso, é importante estar aberto a aprender e se adaptar às novas demandas do mercado de trabalho, mantendo-se atualizado com as tendências e tecnologias emergentes. Flexibilidade e resiliência são palavras chaves nesse contexto.
O segundo passo, é a busca por programas e projetos que promovam o autoconhecimento, para que ele se descubra, entenda suas habilidades comportamentais, quais seus talentos e perceba em quais pontos precisa se desenvolver. Pois investir em cursos educacionais, técnicos e de línguas, são de extrema importância, mas a juventude também precisa aprender a se conhecer e se relacionar bem consigo, valorizando suas origens e evitando se sabotar ao acreditar que não podem aspirar a voos mais altos. Além disso, eles devem aprender a se comunicar de forma clara e efetiva, desenvolver sua capacidade de pensamento crítico e resolução de problemas, para que possam aproveitar as oportunidades do mercado de trabalho e ter relacionamentos saudáveis no ambiente de trabalho.
Por fim, existem pontos importantes a serem refletidos, repensados e ajustados de ambas as partes, para assim conseguirmos mais do que mudar essa estatística, mas mudar a nossa sociedade, através da educação e das oportunidades, tornando o nosso país um lugar melhor para todos.