No dia 20 de novembro foi comemorado oficialmente o Dia da Consciência Negra, cujo objetivo é trazer uma reflexão sobre a desigualdade racial que ainda existe nos níveis sociais e econômicos do Brasil. A data  faz alusão ao reconhecimento e homenagem à luta de Zumbi dos Palmares, um dos maiores líderes negros do Brasil, e seus companheiros no quilombo.

No âmbito corporativo, os números ainda revelam a presença da desigualdade e diferenças de oportunidades no mercado de trabalho. Segundo estudo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgado em novembro de 2021,  pessoas pretas são a maioria (53,8%) dos trabalhadores do país, mas ainda assim ocupam apenas 29,5% dos cargos gerenciais. Já os brancos são 45,2% dos trabalhadores e 69% dos líderes. 

Assim, para refletir sobre a data, reunimos quatro lideranças negras para contar sobre os desafios e questões que ainda precisam ser resolvidas no mundo corporativo.

Reconhecimento, pertencimento e representatividade de  líderes negros

Para André Luiz, chefe de operações (COO) da a55 , encontrar referências negras em um local de sucesso é difícil, geralmente pessoas brancas são vistas nestas situações de poder. “Ser um líder negro não significa liderar apenas para as pessoas da mesma cor, e sim ensinar e mostrar que é possível ser referência para todos como uma pessoa de pele preta”, explica o executivo.

Angélica Souza, líder de Diversidade, Equidade e Inclusão da Movile , aponta que senso de pertencimento e identidade é uma das principais motivações para um bom desempenho em uma empresa. “Poder enxergar pessoas negras na liderança é tirar a imagem como estatística de algo negativo. Além de ter essa representatividade, é necessário ter a proporcionalidade nessas posições, sendo uma voz ativa para as inovações e mudanças do ambiente, transformando a pessoa negra como protagonista da própria história e cultura”, afirma Angélica.  A executiva ainda complementa: “Quando pensamos no mercado de trabalho, tenho uma grande referência para mim, a Rachel Maia, uma das primeiras CEO negras do nosso país, com uma história de luta, que teve que enfrentar diversos contextos negativos”.

Para Zélia Peixoto, líder de produção cultural do Museu Afro Brasil, ter pessoas negras na liderança é uma forma de garantir representabilidade do negro no mercado de trabalho. “A importância dessa representatividade é conseguir ter um olhar mais empático e verdadeiro com o seu público e ciente de que a empresa realmente se preocupa com a pessoa negra ocupando cargos altos e não contratam somente para colocar pretos como fachada ou para preencher algum tipo de cota”, explica a executiva.

Diversidade, Equidade e Inclusão dentro das empresas - Robson Privado, COO e Co-founder da  Madeira Madeira

Para Robson, a data é de reflexão sobre a responsabilidade que todos têm no entendimento de que a desigualdade racial é um problema estrutural e não pontual. Seja como indivíduo, como empresa, como governo, todos devem atuar no combate ao racismo. “Desde que eu comecei a entender a minha responsabilidade como uma figura negra no mercado corporativo, ou seja, como o primeiro homem negro cofundador de uma startup unicórnio e um dos poucos C-levels em empresas Scale Up, eu passei a buscar formas de colaborar como indivíduo e como empresário para que essa também seja a realidade de outras pessoas negras, independente da sua área de atuação”, explica. 

Segundo o executivo, é necessário que todos também no universo corporativo reflitam sobre a forma de promover Diversidade, Equidade e Inclusão dentro dos negócios de maneira estratégica e transformando esse pilar em um compromisso. “Precisamos olhar para a realidade dos grupos minorizados e se perguntar: onde estão os gaps e como eu posso transformá-los? E a partir disso, é necessário pensarmos em ações estruturais e afirmativas, mas que sejam genuínas e com uma base sólida, para que realmente haja permanência na cultura e no DNA das nossas companhias”. 

Robson também reforça a importância de desenvolver os times no assunto, sendo necessário oferecer uma base de educação sobre os temas. “É meu papel como líder e empreendedor, atuar na linha de frente dessa educação. Eu fui o primeiro cofundador negro de um unicórnio, mas com certeza não serei o único. Meu desejo é que daqui a alguns anos nós possamos estar discutindo outros pontos da cultura negra e não só do combate diário do racismo estrutural”, finaliza. 


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