De acordo com dados do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), de cada 10 empresas brasileiras, nove são familiares. Porém, o mesmo estudo aponta que só 25% delas conseguem passar o negócio com sucesso para outra geração. A falta de profissionalização, falta de gestão, brigas pessoais entre membros da família, deslealdade e desconfiança por parte dos funcionários são alguns dos motivos para o resultado negativo que destrói um quarto dos sonhos herdados de pais para filhos. Greice Ciarrocchi, CEO da CCS Tecnologia e Serviços SA, é um dos casos que vão na contramão dessas histórias e, hoje, mantém erguidas a empresa e a história de sua família, por meio de estratégias certeiras, autoconhecimento e profissionalismo, tanto de si quanto de seus mais 2 mil colaboradores, divididos em duas sedes próprias, uma em Limeira (SP) e outra em Palmeira (PR).
A empresa brasileira, fundada pelo seu pai, Almir Ciarrocchi, que faleceu em 2017, está entre as maiores do mundo no segmento de fornecimento de peças de aço de alta complexidade, soldadas e montadas para empresas de máquinas de construção, mineração e agrícolas, além de empilhadeiras. A CCS superou uma crise que quase a levou à falência e, atualmente, conta com previsão de um faturamento de R$ 1 bilhão somente este ano, valor acima do esperado para a indústria, que foi afetada pela pandemia da Covid-19. "Para ter uma empresa familiar, é preciso ter muita maturidade. Laços familiares e harmonia é uma coisa à parte da empresa, até porque muitos funcionários dependem que façamos escolhas certas, que vão além de brigas familiares, discussões e problemas pessoais. Os interesses da empresa devem estar acima dos interesses pessoais. Aqueles que seguem o contrário não alcançam o sucesso e, infelizmente, colocam em risco o negócio", aponta a especialista em Relações Humanas (RH), que é quem lista os cinco erros comumente cometidos pelos negócios familiares no país.
Confira, abaixo, quais são eles e como evitá-los:
1. Não buscar evolução somente por ter herdado a empresa e ser um familiar
Muitos herdeiros não buscam evolução ao assumirem o cargo de líder e se sentam em uma cadeira que não estão aptos e nem preparados para gerir ou lidar. "Os principais diferenciais estão no estudo, na profissionalização e em buscar técnicas novas de gestão e tendências de mercado, assim como fortalecer a cultura organizacional", aponta Greice, que começou na empresa aos 20 anos, logo após iniciar na carreira como administradora, e sempre recebeu um salário de acordo com as suas qualificações e cargo, como todos os funcionários da empresa. "Esse foi o acordo que fiz com o meu pai desde o início. Quando entrei, fui atrás de me especializar por meio de estudos, da mesma forma que eu faria se estivesse trabalhando em outra empresa", complementa.
2. Deixar a empresa depender somente de um único líder
Segundo a empresária, o negócio é algo que deve perdurar, independentemente de ser familiar ou não. O diretor geral precisa deixar o ego de lado e pensar que não é preciso e benéfico que a empresa dependa apenas do núcleo familiar e/ou de pessoas específicas. "É importante ter um bom plano de estruturação, para que não fique tudo centralizado em apenas algumas pessoas. Sempre temos que ter em mente que a empresa não pode ser afetada quando e se ocorrer a falta destas pessoas consideradas chaves", salienta a especialista.
Leia Também
3. Desistir de buscar a evolução da empresa como um todo
"Sabíamos que tinham coisas ótimas durante a gestão do meu pai, mas eu sempre me questiono o que a CCS pode fazer de diferente para ser melhor e fortalecer, ainda mais, os pontos fortes da empresa, além de analisar os que precisam ser abandonados por não funcionarem ou trazerem benefícios", conta, abertamente, o nome à frente da empresa, que já está há mais de 25 anos no mercado. "Precisamos reconhecer que chegamos até aqui com os nossos pontos fortes e com os pontos a serem melhorados, mas acima de tudo olhar para o futuro e ter coragem de abandonar padrões e práticas que não nos servem mais. Esta é uma jornada contínua de análise e fortalecimento de cultura".
4. Não definir e nem manter os valores da empresa alinhados com as lideranças
De acordo com a empresária, quando acontece algum comportamento que não condiz com os valores da empresa, é preciso tomar atitudes e arcar com as consequências delas. "Muitas vezes percebo que isso não acontece e a alta direção opta por manter líderes totalmente desalinhados com os valores da organização. Percebo que falta coragem para fazer o que tem que ser feito, e isso é muito grave. Manter pessoas em cargos de liderança que não têm comportamentos e atitudes adequadas é um câncer para a organização. Na CCS fazemos questão de treinar a nossa equipe e profissionalizá-los, e deixar claro quais os princípios e atitudes que esperamos deles", acrescenta Ciarrocchi.
5. Eliminar o favoritismo dentro da empresa
É de suma importância que não ocorra favoritismo. É preciso ser muito imparcial e profissional em uma promoção e de maneira alguma favorecer pessoas da família por exemplo. Isso desmotiva os outros funcionários e faz com que acreditem que nunca podem subir de cargo, por estarem sendo geridos por alguém da família quando, na verdade, todos podem ser qualificados para a vaga.
"Precisamos sempre ser o exemplo. É a nossa obrigação sermos pessoas melhores a cada dia. Ninguém vai se inspirar em alguém que não tem ética, educação e humildade. O segredo da CCS é, justamente, a gestão com credibilidade, ética, transparência e honestidade, que são valores que nos fortalecem. Também estamos sempre em busca de maneiras novas de fazermos as mesmas coisas, acompanhando a tecnologia e o mercado. É preciso investir e não parar no tempo. Isso fez muitas empresas que já foram potências ficarem para trás. Nós temos a nossa família de sangue, mas a equipe da CCS é a minha família também", finaliza Greice.