Reunião de última hora, você liga o Zoom e de repente abrem as câmeras do seu gestor e do RH, você respira tenta manter a calma e ouve: “Olha você é uma excelente funcionária, mas infelizmente vamos te desligar”. Naqueles segundos passam milhões de pensamentos em sua cabeça “Mas como assim, então toda a minha experiência, eu não me encaixo em nenhuma área da empresa?”. Não, infelizmente a decisão já foi tomada e sim você foi desligada, como se você fosse uma máquina descartável e aqui você simplesmente não serve mais.
Isso não aconteceu comigo só uma vez, mas foram pelo menos três. Tomei coragem para compartilhar isso pois espero que sirva como um conforto para quem está passando por isso, ou já passou, ainda mais nesse momento de pandemia incansável.
Contando brevemente os fatos, a primeira vez que ouvi “você está sendo desligada” foi numa empresa que eu amava trabalhar lá, muitos anos de trabalho no grupo, toda a minha vida e minha rotina giravam naquele lugar, sendo que passar mais de uma década praticamente morando na empresa é como se ela fosse sua família, na verdade ela é sua família pois você passa lá a maior parte do seu dia. Pois bem, estávamos passando por uma crise econômica, eu tinha acabado de mudar de área, minha atividade poderia ser muito bem realizada por outra pessoa, no Dia D acontece a situação: o telefone toca, vou para uma sala de vidro, ambiente aberto, empresa transparente, todo mundo te vendo e escutando, você não sabe se fica mais constrangida pela situação ou por todo mundo estar vendo a sua reação.
Foi a primeira vez que aconteceu isso comigo, fiquei mal, e demorou seis longos meses para eu conseguir me recolocar no mercado, detalhe por um salário menor e agradecendo diariamente que tinha uma nova oportunidade. Mais uma vez estava eu lá: mais de quatro horas diárias no trânsito entre o trajeto de ida e vinda, muitos finais de semanas trabalhados e doados pela empresa, afinal eu sempre dediquei todo o meu tempo a empresa, era como se fosse uma maneira de gratidão pela oportunidade. Adivinhem o que aconteceu, depois de apenas seis meses trabalhando lá o orçamento anual foi reduzido mais pela metade e com isso todos os gestores e seniores foram desligados, mais uma vez me chamaram para sala e falaram a famosa frase e depois um lindo “pega as suas coisas e vai embora.”
Lá estava eu de novo, aprendendo a contar a minha história, aprendendo a como me destacar num processo seletivo, aprendendo a não desistir, aprendendo a confiar em mim, aprendendo a mostrar tudo o que sou capaz e como se destacar no mercado, aprendo a fazer meu marketing pessoal, aprendendo o que eu faço com as marcas: personal branding, storytelling, networking e call to action. Todas essas nomenclaturas bonitas para eu me destacar em meio a multidão de profissionais capacitados e reconquistar o meu espaço. Comecei a escrever, a compartilhar tudo o que eu aprendia, frequentava diversos eventos educacionais, fazia diversos cursos profissionalizantes. O importante era não ficar parada, cuidar dos meus pensamentos e da minha saúde física e mental.
Nesse meio tempo, consegui me recolocar e tive passagem por mais duas empresas, sendo que eu fiz a transição por opção própria, mas aí veio a pandemia e voltamos a cena do começo desse artigo: reunião, desliga e tchau, até um copo descartável teria um descarte mais carinhoso.
Você viu?
Esse é um recado e um desabafo a todos os chefes, sim chefes, pois líderes não tratam seus funcionários com insignificância, não tratam seus funcionários como se fossem máquinas que podem ser desligadas a qualquer momento. Não somos máquinas, somos pessoas, temos famílias, temos compromissos financeiros, temos sonhos a serem alcançados. Se você líder tiver que passar por essa situação, tenha o mínimo de empatia e cuidado com as palavras, ali na sua frente tem uma pessoa tentando ser forte mas que por dentro está desmoronando.
Para todas as pessoas que possam estar lendo isso, recentemente num passeio no parque ouvi de uma criança que estava aprendendo a andar de bicicleta “tenha coragem, você vai conseguir!”, essa é a única verdade, tenha coragem e não desista.
Bom, eu mesma fui desligada pelo menos três vezes, mesmo tendo pós-graduação, cursos no exterior, outros idiomas e todos os requisitos que somos acostumados a ter que cumprir. Mas, o que eu aprendi com todos esses acontecimentos é que sempre a próxima oportunidade foi melhor e sempre será melhor. Se não fosse todo essa minha bagagem, eu com certeza não teria recebido a melhor proposta da minha vida, e não estaria preparada para encarar e criar uma nova realidade. Honre e admire quem está ao seu lado nos piores momentos, quem estende a mão para você quando você não tem nada para oferecer em troca, são essas pessoas que devemos dar valor, são eles que são os verdadeiros lideres e exemplos de compaixão.
Você não precisa de um sobrenome corporativo para mostrar quem você é, hoje sou livre e estou aprendendo o que é empreender.
Vanessa Donnianni é sócia e responsável pelas áreas de marketing e comercial da empresa Argentina Finca Própria.