Pouco antes das 16h no dia 17 de dezembro de 1954, um grupo de pessoas se reuniu no quintal de Dorothy Martin para uma celebração bastante incomum: a despedida do planeta terra. Tempos antes, Dorothy recebeu uma mensagem de um grupo de extraterrestres, alertando-a de que no dia 21 de dezembro uma grande inundação acabaria com a vida na terra. Mais cedo no dia 17, Dorothy recebeu a ligação de um alienígena que a informou que um disco voador pousaria em seu jardim pontualmente às 16h para salvar os membros de seu culto – os quais haviam abandonado suas casas, famílias, bens, empregos e casamentos para seguir Dorothy.

Às 17h30, ainda sem sinais da nave espacial, os membros retornaram para o interior da casa e, depois de muita conversa, chegaram à conclusão de que o ato performado pelos extraterrestres naquele momento era uma espécie de treinamento para certificar que os terráqueos não cometeriam falhas no momento real do resgate. Naquele dia, pouco antes das 16h, os membros do grupo se livraram de todos os objetos de metal de suas roupas e corpos, como zíperes, cordões, anéis, botões e alças de sutiãs: algo essencial para poder embarcar no disco voador com segurança, segundo Dorothy. “A nave realmente irá pousar em um determinado momento, mas todos devem estar treinados” afirmou a líder do grupo. Mais tarde naquele mesmo dia, o braço de Dorothy amorteceu – o sinal de que algum extraterrestre queria usar seu corpo para enviar uma mensagem – vindo a transcrever a mensagem de que o disco voador os resgataria às 1h30 do dia 18. O grupo desistiu de esperar às 3h30.

No dia 20 de dezembro, uma nova mensagem: o grupo deveria esperar um visitante do planeta Clarion que os acompanharia até uma nave espacial exatamente à meia-noite. Às 4h45 da manhã, livres de objetos de metal e ainda tentando encontrar explicações para a não aparição do extraterrestre, Dorothy recebe uma nova mensagem: “O desastre foi prorrogado. O pequeno grupo que ficou sentado a noite toda, espalhou tanta luz que o Deus da Terra salvou o planeta da destruição”.

O que você acha que aconteceu com o grupo depois deste evento? A intuição de muitos é a de que depois de tantas decepções seguidas, os membros abandonaram o grupo, mas não foi isto o que aconteceu. Pelo contrário: a fé do grupo aumentou.

O fenômeno que promoveu o curioso comportamento deste grupo é conhecido como dissonância cognitiva, uma teoria desenvolvida pelo cientista Leon Festinger, que se infiltrou no grupo de Dorothy Martin para comprovar que o ser humano tem dificuldades em admitir erros e aceitar evidências contrárias as suas crenças – mesmo quando estas crenças colocam sua vida em risco. Apesar do exemplo do culto ser extremo, algo similar está acontecendo aqui no Brasil durante a pandemia.

A dissonância cognitiva é o desconforto causado quando uma pessoa é exposta a duas cognições conflitantes: “eu preciso desesperadamente voltar a trabalhar e a ganhar dinheiro” é dissonante com “se eu sair para trabalhar posso contrair coronavírus, colocar outras pessoas em risco e até morrer”. Para reduzir o desconforto causado pela dissonância, esta pessoa tem duas opções: ou ela aceita que voltar ao trabalho neste momento é arriscado, planeja uma nova forma de trabalhar e entende que ganhará menos dinheiro ou ela tenta convencer a si mesma de que o vírus não é uma ameaça tão séria: “a pandemia foi inventada pela mídia”, “o vírus não é letal para pessoas na minha faixa etária” ou “isto é uma conspiração, a China criou este vírus para ganhar dinheiro com a vacina”. Assim, uma vez que o indivíduo escolhe qual cognição prefere que seja verdade, ele passa a consumir apenas informações que confirmem que sua escolha é a correta e a descartar aquelas que são contrárias. Em questão de dias, o indivíduo aumenta a sua fé na crença e passa a ficar plenamente convencido de que sua posição sobre a severidade do Covid-19 é correta e que qualquer pessoa que tenha uma visão contrária é maluca ou mal-intencionada. Este é precisamente o mecanismo que causa polarização. Inúmeros estudos científicos comprovam que, sozinhas, as pessoas não conseguem encontrar todas as justificativas pelas quais sustentam certa posição, assim, quando estão acompanhadas por outras pessoas com ideias similares, elas acabam conhecendo novos pontos de vista que, consequentemente, aumentam suas convicções de que suas opiniões são corretas e movem-nas para posições cada vez mais extremas. Políticos, correligionários, executivos, líderes religiosos e torcedores estão sujeitos a polarização quando não estão conscientes do poder da dissonância cognitiva.

A dissonância tem efeitos ainda mais graves quando as evidências apresentadas fazem com que o indivíduo sinta que sua autoimagem como inteligente, honesto e racional está sendo ameaçada. “Eu vendi minha casa, abandonei minha família e larguei o meu emprego porque acreditei que uma nave espacial viria me resgatar de uma grande catástrofe. Por quatro oportunidades eu fiquei esperando a nave espacial e ela não apareceu”, são cognições conflitantes com “eu sou esperto, tomo boas decisões, sou racional”. Para preservar sua autoimagem, o indivíduo encontra as mais bizarras explicações para justificar suas decisões passadas e assim, passar a sentir-se bem novamente: “A nave espacial não apareceu porque era um treinamento”, “os alienígenas abortaram a missão porque alguém do grupo esqueceu de arrancar o zíper da calça”, “o disco voador não precisou vir pois meu grupo salvou a terra da destruição”.

Você viu?

Entre os milhares de estudos científicos influenciados pela teoria de Festinger, um artigo publicado pelos cientistas Joel Cohen e Harold Kassarjian destaca-se. Logo após uma publicação do Ministério da Saúde dos EUA sobre a ligação entre tabagismo e câncer, 90% dos não-fumantes afirmavam confiar no relatório. No entanto, apenas 40% dos fumantes acreditavam no mesmo. Os demais 60% preferiram reduzir a dissonância entre “eu fumo, sou inteligente e tomo boas decisões” e “fumar mata”, afirmando que “o relatório era inconclusivo”, que “fumar os mantinha magros e que obesidade também mata”, que “no final das contas, fumantes e não-fumantes estão sujeitos a ter câncer” ou que “fumar era uma atividade essencial para reduzir o estresse”. Numa tentativa de diminuir o desconforto causado pelo conhecimento de que fumar causa morte prematura, o fumante procura por pessoas famosas, médicos ou intelectuais que fumam e assim, convence a si mesmo de que se estas pessoas inteligentes agem desta forma, o tabagismo não deve ser tão perigoso assim. Depois de algumas horas amadurecendo esta cognição e conversando com outros fumantes, o indivíduo aumenta sua fé nos benefícios do tabagismo e sai com a certeza de que está tomando uma excelente decisão cada vez que coloca um cigarro entre os lábios.

Mais recentemente em nosso país, a dissonância “eu acreditei em um partido político por décadas, achei que os membros deste partido eram honestos, doei dinheiro para as campanhas de seus candidatos, fui a centenas de comícios, briguei com meus familiares por causa da minha visão política. Sou uma pessoa honesta, inteligente e do bem” e “ o líder e outros membros deste partido foram presos por corrupção”, motivou alguns seguidores do partido a se desligarem da causa, no entanto, o desconforto causado por estas cognições conflitantes fez com que a maioria fabricasse justificativas como “nada foi provado contra ele”, “a prisão é um golpe político”, “tudo isto é uma conspiração para o Juiz de Curitiba se candidatar a presidente no futuro”. Como você pode imaginar, a dissonância causou um aumento na fé deste grupo sobre a inocência de seu líder e um aumento na polarização política.

Já os presidentes Donald Trump e Jair Bolsonaro, diantes da dissonância: “eu preciso fazer a economia do meu país crescer” e “os cientistas aconselham que as pessoas fiquem em casa para conter a disseminação do coronavírus e diminuir o número de mortes”, escolheram defender a alternativa equivocada e assim, continuam fazendo de tudo para reduzir em suas cabeças e nas de seus seguidores a real severidade do coronavírus: não usando máscaras em público, promovendo aglomerações, não respeitando o distanciamento social, incentivando o uso de medicamentos sem eficácia comprovada pela ciência e emanando frases como: “é só uma gripinha” e “não tenha medo do coronavírus”. A dificuldade que qualquer ser humano tem em mudar sua escolha inicial fez com que o Brasil e os EUA estejam no topo do ranking de mortes pelo vírus e sofram com taxas altíssimas de desemprego, fatos que, consequentemente, estão atrasando a retomada da economia.

Esta dificuldade em mudar decisões passadas fez uma nova vítima da dissonância cognitiva aparecer: o Ministro do STF Marco Aurélio Mello. Após determinar a soltura de um perigoso criminoso e ter sua decisão cassada pelo Ministro Luiz Fux, Marco Aurélio Mello novamente se mostrou contrário à volta do criminoso à prisão. “Continuo convencido do acerto da liminar que implementei”, disse o Ministro após uma nova votação. O fato mais curioso, no entanto, foi o Ministro afirmar que tomou decisões semelhantes outras 79 vezes! Convenhamos que força enorme é necessária para admitir 79 decisões erradas e que encontrar justificativas para diminuir o desconforto e preservar a autoimagem de honesto, competente e racional se tornou um caminho mais sedutor para o Ministro. O humano é um ser racionalizador: ao darmos o primeiro passo em direção a uma decisão errada ou antiética, torna-se fácil racionalizar esta decisão. Após racionalizar a primeira decisão, torna-se fácil racionalizar a próxima e assim por diante.

É fundamental sabermos que a dissonância cognitiva irá nos afetar perversamente durante este período de pandemia: “Minha empresa precisa urgentemente de caixa”, “eu quero passear livremente”, “estou com saudades dos meus familiares”, “ninguém vai me obrigar a tomar vacina” e “estou desesperado para encontrar um emprego” são exemplos de cognições que podem influenciar negativamente nossas decisões presentes, gerar conflitos desnecessários, adiar ainda mais a recuperação da economia do nosso país e colocar-nos em um caminho longo no combate ao coronavírus. Não é fácil admitir quando estamos errados, mas este ato pode fazer com que deixemos de esperar por discos voadores nos salvarem da catástrofe e passemos a seguir as recomendações dos cientistas. Para qual lado sua fé seguirá?

Luiz Gaziri
Divulgação

Luiz Gaziri atua com consultorias, palestras e workshops, além de ser professor de pós-graduação na FAE Business School.



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