A curtíssima temporada do professor Carlos Alberto Decotelli no comando do Ministério da Educação acende um alerta preocupante: a ética no sistema educacional. O educador teve seu currículo acadêmico questionado, foi acusado de plágio em sua dissertação de mestrado e teve o título de doutorado confrontado. As inconsistências o levaram a pedir demissão do cargo de ministro cinco dias depois de convocado, sem que a nomeação tenha sido oficializada.

A ética foi colocada à prova e não resistiu. O que me fez resgatar uma pesquisa realizada em 2016 pela UniCarioca, encomendada e divulgada pelo jornalista Antônio Gois, de O Globo, que apresentou dados igualmente críticos, merecedores de uma reflexão profunda de nós, educadores.

Os resultados indicam uma corrupção generalizada em sala de aula: 69% dos alunos já colaram em provas, 68% copiam indevidamente textos da internet e 48% assinaram lista de presença em nome de colegas. O que é pior: para os alunos entrevistados, 61% dos professores não verificam esse tipo de comportamento. A pesquisa ouviu 1,1 mil alunos dos ensinos médio e superior, na faixa entre 16 e 30 anos.

Dois fatos saltam aos olhos, em uma primeira análise do resultado: o pouco caso de grande parte dos alunos com os mínimos princípios éticos e a falta de empenho dos docentes para impor a disciplina em sala de aula. Cria-se, assim, uma cultura escolar perversa, na qual os professores fingem que ensinam e os alunos fingem que aprendem. Dá para apostar no futuro dessa geração, com esse trágico exemplo vindo da escola, desde tão cedo?

Como reverter essa grave situação? Em primeiro lugar, é necessário rever os currículos dos cursos de Licenciatura, focando mais em atividades práticas de sala de aula, com base nas evidências científicas sobre as melhores práticas docentes. As disciplinas precisam trabalhar melhor o lado comportamental dos futuros professores, ensinando-os a ensinar, de forma que consigam motivar os alunos, despertando neles a natural curiosidade e a vontade de aprender. Sem profissionais com essa competência as aulas ficam desinteressantes, geram desmotivação e levam ao desleixo com as avaliações.

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Em segundo lugar, é preciso disseminar entre os docentes as ferramentas que existem para coibir a cópia de trabalhos na internet. A fraude pode ser inibida com a aplicação do texto a um software de reconhecimento de padrões. Muitos desses softwares são gratuitos e estão disponíveis para download on-line.

Por fim, as escolas devem incentivar a criação e adoção de códigos de ética, aproveitando para explicar aos alunos a importância de formular e cumprir regras que defendam o interesse coletivo. Muitas universidades americanas já possuem seus códigos de ética, voluntariamente assinados pelos seus alunos ingressantes.

Nesse momento de crise política, econômica e institucional em que vive o país, nossos professores podem e devem dar o exemplo, cobrando atitudes éticas dos alunos, e despertando neles o prazer em adquirir novos conhecimentos. A avaliação deve ser entendida pelos alunos como processo natural da aprendizagem, e não como algo em que se pode “dar um jeitinho”, bem à brasileira. E o bom comportamento deve ser incentivado, como parte fundamental da formação do caráter dos futuros cidadãos. Como se diz corriqueiramente, se “o exemplo deve vir de casa”, é da escola que deve vir também o exemplo de uma vida ética, produtiva e feliz.

Celso Niskier
Arquivo Pessoal/Celso Niskier

Celso Niskier é Diretor presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) e Reitor do Centro Universitário UniCarioca.



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